Como Satanás Salva Uma Alma

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Como Satanás Salva Uma Alma

Por JOHN PIPER

Tradução: Christiane Jost

1 Coríntios 5:1-13

“Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai. 2 E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso? 3 Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei 4 aquele que fez isso, como se estivesse presente. Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus, estando eu com vocês em espírito, estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, 5 entreguem esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor. 6 O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada? 7 Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. 8 Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento, os pães da sinceridade e da verdade. 9 Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais. 10 Com isso não me refiro aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, aos ladrões ou aos idólatras. Se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo. 11 Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer. 12 Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Não devem vocês julgar os que estão dentro? 13 Deus julgará os de fora. “Expulsem esse perverso do meio de vocês.”

Se você não um membro de Bethlehem (onde Piper é pastor), e não recebeu a correspondência sobre o adultério de pecado contínuo sem arrependimento de um de nossos membros e missionários, você deve saber que esta situação dolorosa é a razão para o sermão desta manhã. Guardarei os detalhes necessários para o tempo a seguir de oração e ação da igreja. É suficiente dizer agora que não estamos lidando com o abstrato neste texto. Nosso objetivo é entender e obedecer o que ele ensina.

Entro nesta próxima hora com mais “medo e tremor” do que, acho, qualquer outra manhã do meu ministério. Não por medo de que estejamos errados, mas por medo do que Deus fará em julgamento. Peço a vocês, com todo meu coração, que voltem sua atenção agora ao que a Bíblia diz sobre a presença de imoralidade impenitente no corpo de Cristo.

A situação em Coríntio

A situação em Coríntio é a de um homem que está tendo relações sexuais com sua mãe ou madrasta. Versículo 1: “Por toda parte se ouve que há imoralidade entre vocês, imoralidade que não ocorre nem entre os pagãos, ao ponto de um de vocês possuir a mulher de seu pai.”

A frase “mulher de seu pai” pode implicar que a mulher não seja sua mãe biológica. Posso implicar que seu pai é viúvo ou divorciado, e tenha casado novamente. O pai pode estar vivo. Ou pode estar morto. Paulo não diz que qualquer destes casos mudaria o pecado do que está acontecendo: o filho “possui” a mulher de seu pai. E Paulo chama a isto de “imoralidade” – um tipo de imoralidade que mesmo os pagãos não Cristãos condenam.

A imoralidade não foi a de uma noite seguida por um arrependimento de coração partido (o que teria resultado em uma resposta muito diferente de Paulo). O versículo diz, “Alguém POSSUI (não, “possuiu” – um tempo presente e contínuo) a mulher de seu pai. Não há arrependimento, ou fuga desta imoralidade.

De fato, não somente não há arrependimento; há uma ostentação descarada. O que o versículo 2 mostra é como a igreja respondeu à imoralidade na igreja, e como deveria ter respondido. Versículo 2: “E vocês estão orgulhosos! Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?”

Tolerância ao Pecado é Pecado

Acho que deveria fazer com que paremos para pensar – até mesmo nos chocar – que o diagnóstico do problema em Coríntio é exatamente o oposto do diagnóstico em muitas igrejas hoje. Hoje, quando a disciplina não acontece, o diagnóstico é que, frequentemente, somos muito humildes para disciplinar uma pessoa: Quem somos nós para acusar alguém? Quem somos nós para julgar? Quem somos nós para jogar a primeira pedra? E então uma suposta humildade é usada como base para a tolerância à imoralidade na igreja.

Por outro lado, hoje, se a igreja persiste na disciplina, é frequentemente diagnosticada como cheia de orgulho farisaico. A indignação contra o pecado é frequentemente mostrada como um pretexto para insegurança e um véu sobre as tentações sexuais dos próprios Fariseus. Um tipo de atitude “sou mais santo do que vós” é dita como a base para a indignação e a arrogância dita a base da excomunhão.

Isto pode ser verdade. Mas faz você parar para pensar, e muito, e examinar seu coração (aconteceu comigo) quando você lê, no versículo 2, que o diagnóstico de Paulo sobre o problema em Coríntio era exatamente o oposto? Ali, arrogância era a base da tolerância, e humildade triste deveria ter sido a base da excomunhão.

Ele disse, “Você ficou arrogante.” As pessoas na igreja estavam realmente ostentando nesta imoralidade. Como isto pode acontecer? Que tipo de teologia daria margem à ostentação da imoralidade? Vimos isto nas cartas de Paulo, em outro local. Elas dizem, “Façamos o mal, para que nos venha o bem” (Rom. 3:8; 6:1). Então é uma teologia que não entende corretamente o poder da graça, e torna-a em licenciosidade. É uma teologia que entende mal a liberdade e a usa como “ocasião à vontade da carne” (Gal. 5:13), e diz (como disseram em Coríntio) “tudo me é permitido” (1 Cor. 6:12; 10:23). E então eles estavam ostentando em sua liberdade e na tolerância da graça. O orgulho foi a base da tolerância pecaminosa, não julgamento farisaico.

A verdadeira humildade faz o trabalho duro

E humildade, como Paulo a apresentou, foi a base da excomunhão, não tolerância. “…Não deviam, porém, estar cheios de tristeza e expulsar da comunhão aquele que fez isso?” “Abençoados sejam os que lamentam”, disse Jesus. Abençoados sejam os mansos e os de coração partido que conhecem o horror do pecado e suas próprias vulnerabilidades e falhas e ofensas contra Deus. Estes são os que, diz Paulo, removerão o impenitente da igreja. Verdadeira contrição e pesar são a base da excomunhão. A verdadeira contrição bíblica não diz, “Eu nunca poderia julgar um irmão desta forma”. A verdadeira contrição bíblica acredita nos versículos 9-13 e submete-se à autoridade do apóstolo.

9 Já lhes disse por carta que vocês não devem associar-se com pessoas imorais. 10 Com isso não me refiro aos imorais deste mundo, nem aos avarentos, aos ladrões ou aos idólatras. Se assim fosse, vocês precisariam sair deste mundo. 11 Mas agora estou lhes escrevendo que não devem associar-se com qualquer que, dizendo-se irmão, seja imoral, avarento, idólatra, caluniador, alcoólatra ou ladrão. Com tais pessoas vocês nem devem comer. 12 Pois, como haveria eu de julgar os de fora da igreja? Você não julga aqueles que estão dentro da igreja? 13 Deus julgará os de fora. Expulsem esse perverso do meio de vocês”.

A contrição bíblica submete-se ao processo doloroso, arriscado, demorado, frequentemente opressivo, da disciplina da igreja. Ela diz, “Vou retirar o cisco de meu olho para que possa ver claramente, e possa fazer qualquer cirurgia nos olhos que a Bíblia me diga para fazer”. Ela diz, “Vou olhar para mim mesmo para que também não seja tentado, ao procurar seguir os conselhos de Deus na exclusão de outra pessoa, na esperança da reconciliação”. A humildade não diz a Deus como conceder sua graça. Ela escuta e tenta obedecer com medo e trêmula.

Livrar-se do fermento velho

Um de nossos homens disse-me, na manhã de sexta-feira, que, ao orar por Daryl, ele simplesmente começou a chorar. Ele não é o único. É nesse espírito que nos unimos nesta manhã: o caminho para remover alguém da igreja é o lamento da humildade, não do orgulho. A humildade bíblica não diz, “Nunca poderíamos fazer isto”. Ao contrário, Paulo diz que é o orgulho que resiste a colocar os homens imorais para fora.

Veja o versículo 6: “O orgulho de vocês (aqui está o orgulho) não é bom”. Por que não? Primeiro, porque está enraizado na ignorância. O versículo continua: “Vocês não sabem (aqui está a ignorância) que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada?” Em outras palavras, “Em seu suposto conhecimento da graça e liberdade, vocês estão destruindo a igreja”. Eles nunca teriam sonhado que, ao ostentar na graça e liberdade, eles estavam corrompendo e destruindo a igreja, de dentro para fora.

Então, Paulo diz no versículo 7, “Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado”.

Por uma semana, após o sacrifício do Cordeiro pascal, a casa deveria estar livre de todo o fermento. Paulo toma isto como a figura do pecado na igreja. Cristo é agora nosso Cordeiro pascal. E nossa celebração pascal não dura somente uma semana, mas uma vida inteira. O fermento do pecado deve ser removido permanentemente. Nunca faremos as pazes com o pecado novamente. Lutamos contra ele, nós o confessamos, fugimos dele e nunca ostentamos em sua presença.

Mas o orgulho em Coríntio disse, “Cristo foi sacrificado por nossos pecados, então podemos fazer o mal para que nos venha o bem”. Mas Paulo disse, “Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado, portanto livrem-se do fermento velho.”

Quando falei com Daryl ao telefone para implorar-lhe que arrependa-se e retorne à sua esposa e à sua igreja, e ao seu Salvador, o último texto que usei foi Tito 2:14, “[Cristo] se entregou por nós a fim de nos… purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à prática de boas obras.” Em outras palavras, Cristo morreu para limpar o fermento do pecado de nossas vidas e da igreja. E eu disse, “Daryl, escolher a impureza, semana após semana, sem arrependimento, é escolher contra o propósito da cruz e enterrar uma espada no flanco de Jesus com cada novo ato de imoralidade. Ele não morreu somente para perdoar seu pecado, ele morreu para fortalecê-lo contra o pecado. E aqueles que não abraçarem o poder da cruz para lutar contra seus pecados não terão o perdão da cruz para perdoar seus pecados.”

Eles pensaram que poderiam ter Cristo como aquele que perdoa e rejeitá-lo como aquele que purifica.

Para isto, Paulo dá uma resposta clara no versículo 7: Não. Mas “livrem-se do fermento velho, para que sejam” o que vocês realmente são em Cristo -massa nova e sem fermento. Por que se você não agir como você é, então você não é. A prova de seu perdão é sua paixão por pureza. O que devem então fazer? E o que devemos fazer?

Deus pode usar Satanás para santificar

Paulo diz, nos versículos 2, 7 e 13, que o homem que é culpado desta imoralidade impenitente deve ser removido da igreja: “Expulsem esse perverso do meio de vocês.” (v.13) Mas ele dá a resposta mais completamente nos versículos 3-5: “Apesar de eu não estar presente fisicamente, estou com vocês em espírito. E já condenei aquele que fez isso, como se estivesse presente.” Em outras palavras, Paulo não pode estar lá em pessoa, mas diz que ele exercerá a influência que puder à distância (talvez em oração) para garantir que a disciplina será efetiva.

Ele continua no versículo 4: “Quando vocês estiverem reunidos em nome de nosso Senhor Jesus [e é por isto que não estamos fazendo isto privadamente, mas reunidos na igreja], estando eu com vocês em espírito [em outras palavras, vocês podem contar com a aprovação de Paulo e a presença de sua influência através da oração], estando presente também o poder de nosso Senhor Jesus Cristo, 5 eu decidi [que vocês devem] entregar esse homem a Satanás, para que o corpo seja destruído, e seu espírito seja salvo no dia do Senhor.” Pode ser que, simplesmente expulsando uma pessoa da comunidade, seja o mesmo que entregá-la a Satanás, mas acho que não. Quando Paulo diz, no final do versículo 4, “com o poder do Senhor Jesus”, acho que ele nos mostra que algo mais está acontecendo – algo que precisa do poder de Jesus para ser realizado. Paulo fez isto pelo menos uma outra vez, que sabemos (1 Tim. 1:20): “Entre eles estão Himeneu e Alexandre, os quais entreguei a Satanás, para que aprendam a não blasfemar.”

O que parece estar à vista é algo como o que aconteceu no livro de Jó. O único outro lugar na Bíblia, fora das cartas de Paulo, onde “entregar alguém a Satanás”, com estas mesmas palavras, ocorre é em Jó 2:6, que diz, literalmente, “E o Senhor disse a Satanás, ‘Pois bem, ele [Jó] está em suas mãos; apenas poupe a vida dele.” O próximo versículo diz, “Saiu, pois, Satanás da presença do Senhor e afligiu Jó com feridas terríveis, da sola dos pés ao alto da cabeça.” E o resultado da finalidade da graça de Deus? Jó 42:6-7: “Por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza”.

Então Satanás tornou-se o meio, sob o controle soberano de Deus, para purificar o coração de Jó e trazê-lo para o mais perto de Deus do que jamais esteve. Este não é o único local onde Deus usa Satanás para isto. Em 2 Coríntio 12, Paulo descreve seu espinho na carne como um mensageiro de Satanás, que Deus submete para a humildade de Paulo e a glória de Cristo. Versículo 7: “Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar – para impedir que eu me exaltasse!”

Quando Paulo orou para que Jesus o retirasse, a resposta que teve foi, “Minha graça é suficiente para você, pois o poder é perfeito na fraqueza.” Note que aquele que controla se o “mensageiro de Satanás” fica ou vai é Cristo. É por isto que é tão significativo em nosso texto (v. 4) quando Paulo diz que entregar alguém a Satanás é “com o poder do Senhor Jesus”. Não temos o poder ou a autoridade, em nós mesmos, para fazer isto.

Termino com o que espero contenha tanta esperança para vocês como contém para mim. Jesus é o soberano de Satanás. E ele usa Satanás, nosso arqui-inimigo, para salvar e santificar seu povo. Ele trouxe Jó à penitência e à prosperidade. Ele trouxe Paulo ao ponto onde ele poderia exultar na tribulação e tornar manifesto o poder de Cristo.

E Paulo espera que o resultado da entrega deste homem a Satanás será a salvação de seu espírito no dia de Cristo. Em outras palavras, o objetivo de Paulo – nosso objetivo – em entregar alguém para Satanás é que a miséria virá de tal forma que a pessoa dirá com Jó, “Meus olhos viram o Senhor, por isso menosprezo a mim mesmo e me arrependo no pó e na cinza”.

Poderia ser feridas. Poderia ser cegueira. Poderia ser AIDS. E poderia ser como nada, se fosse salvar o espírito de Daryl do inferno. Que Jesus venha e nos ajude.

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Formado em arquitetura e urbanismo pela Universidade de Fortaleza.
Coordenador do Dpto. Online da ECS
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Doutora em Linguística e Graduada em Letras pela Universidade Federal do Ceará.
Pós-Doutorado em Linguística.
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