Justificação e Santificação, Como elas Diferem?

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Justificação e Santificação, Como elas Diferem?

Por J. C. Ryle

Eu agora proponho considerar, em ultimo lugar, a distinção entre justificação e santificação. Onde elas concordam, e onde elas diferem?

Esta seção de nosso tema é de uma grande importância, embora eu tema que não parecerá assim a todos os meus leitores. Devo abordá-la brevemente, mas não me atrevo passar por ela completamente. Muitos são incapazes de olhar para algo além das coisas superficiais na religião, e dão importância a belas distinções teológicas como questões de “palavras e nomes”, os quais são muito pouco valor real.

Eu alerto aqueles que estão a considerar sobre suas almas, que o desconforto que resulta de não “fazer distinção entre coisas que diferem” na doutrina Cristã é certamente muito grande; e eu os aconselho especialmente, se eles amam a paz, buscar uma visão clara sobre o assunto diante de nós. Devemos sempre lembrar que justificação e santificação são duas coisas distintas. No entanto, há pontos nos quais concordam e pontos nos quais diferem. Tentemos descobrir quais são eles.

No que, então, justificação e santificação são iguais?

(a) Ambas procedem originalmente da livre graça de Deus. É tão somente pelo Seu dom que os crentes podem ser justificados e santificados.

(b) Ambas são parte daquela grande obra a qual Cristo, no pacto eterno, tem se comprometido em favor de Seu povo. Cristo é a fonte da vida, da qual ambos, perdão e santidade, fluem. A raiz de cada é Cristo.

(c) Ambas são encontradas nas mesmas pessoas. Aqueles que são justificados são sempre santificados, e aqueles que são santificados são sempre justificados. Deus as têm posto juntas, e elas não podem ser desassociadas.

(d) Ambas se iniciam ao mesmo tempo. No momento em que alguém passa a ser uma pessoa justificada; também passa a ser uma pessoa santificada. Ela pode não sentir, mas isto é um fato.

(e) Ambas são igualmente necessárias a salvação. Ninguém jamais chegou ao céu sem um coração tão renovado quanto perdoado, sem a graça do Espírito bem como o sangue de Cristo, sem um encontro deste grau com a glória eterna. Uma é tão necessária quanto a outra.

Estes são os pontos sobre os quais justificação e santificação estão em acordo. Vamos agora inverter o quadro e ver onde diferem.

(a) Justificação é o parecer e a contagem de um homem com sendo justo por causa de um outro, sendo este último Jesus Cristo, o Senhor. Santificação é tornar realmente um homem interiormente justo, embora possa estar em um nível muito fraco.

(b) A justiça que temos por nossa justificação não é a nossa própria, mas a eternamente perfeita justiça de nosso grande Mediador, o Cristo, imputada a nós, e feita nossa pela fé. A justiça que temos pela santificação é nossa própria justiça, concedida, inerente e operada em nós pelo Espírito Santo, mas misturada com muita fragilidade e imperfeição.

(c) Na justificação nossas próprias obras não têm lugar em nada, e simples fé em Cristo é a única coisa necessária.

(d) Na santificação nossas próprias obras são de vasta importância e Deus nos faz lutar, e vigiar, e orar, e se esforçar, e suportar dores, e o labor da justificação é uma obra completa e acabada, e um homem é perfeitamente justificado no momento em que crê. Santificação é uma obra imperfeita, comparativamente, e jamais será perfeita até alcançarmos o céu.

(e) A justificação não admite crescimento ou aumento: um homem é tão plenamente justificado na primeira hora em que vem a Cristo pela fé, como o será por toda a eternidade. A santificação é uma obra eminentemente progressiva, e admite contínuo crescimento e aumento por tanto tempo quanto possa um homem viver.

(f) Justificação faz referência especial a nossa pessoa, nossa condição aos olhos de Deus e nossa libertação da culpa. Santificação faz referência especial a nossa natureza, e a renovação moral de nossos corações.

(g) Justificação nos dá nosso passaporte para o céu e a ousadia para adentrá-lo. Santificação nos dá nosso encontro com o céu e nos prepara para apreciá-lo quando formos morar lá.

(h) Justificação é um ato de Deus a respeito de nós e não é facilmente discernido pelos outros. Santificação é um ato de Deus dentro de nós e não pode ser escondido em sua manifestação externa perante os olhos dos homens.

Recomendo estas distinções à atenção de todos os meus leitores e peço-lhes que as ponderem bem. Estou convencido de que um grande motivo da escuridão e dos sentimentos desconfortáveis de muitas pessoas bem intencionadas em matéria de religião é o habito de confundir, e não distinguir, justificação e santificação. Nunca será possível imprimir tão fortemente em nossas mentes que elas são duas coisas separadas. Não há dúvidas de que não podem ser divididas, e todos os que participam de qualquer delas, participam de ambas. Mas nunca, nunca devem ser confundidas, e a distinção entre elas nunca deve ser esquecida. Só me resta agora concluir este assunto com algumas poucas, e claras, palavras de aplicação. A natureza e as marcas visíveis da santificação tem sido trazidas diante de nós. Quais reflexões práticas, acerca de toda esta matéria, devem se levantar em nossas mentes?

(1) Para exemplificar, vamos todos nos despertar para uma sensação do perigoso estado de muitos Cristão professos. “Sem santidade nenhum homem verá o Senhor”; sem santificação não há salvação. (Heb. XII. 14)1. Então, uma enorme quantidade do que há na assim chamada religião, é perfeitamente inútil! Uma imensa parte dos freqüentadores de igreja e freqüentadores de capelas estão na estrada larga que conduz a perdição! O pensamento é terrível, impactante e esmagador. Oh, que pregadores e professores possam abrir os olhos e perceber a condição das almas ao seu redor! Oh, que o homem pudesse ser persuadido a “fugir da ira vindoura”! Se as almas não-santificadas puderem ser salvas e ir para o céu, a Bíblia não é verdadeira. No entanto, a Bíblia é verdadeira e não pode mentir! Qual deve ser o fim!

(2) Outro exemplo: Vamos trabalhar corretamente dentro de nossa própria condição, e não descansar até sentirmos e sabermos que estamos realmente “santificados”. Quais são os nossos gostos, e escolhas, e preferências, e inclinações? Esta é a pergunta do grande teste. Pouco importa o que desejamos, e o que esperamos, e o que queremos ser antes de morrermos. Onde estamos agora? O que estamos fazendo? Estamos santificados ou não? Se não, a culpa é toda nossa.

(3) Outro exemplo: Se quisermos ser santificados, nosso caminho é claro e simples — devemos começar com Cristo. Devemos ir a Ele como pecadores, sem contestação, mas com aquela absoluta necessidade, e lançar nossas almas sobre Ele pela fé, para alcançarmos paz e reconciliação com Deus. Devemos nos colocar em Suas mãos, como nas mãos de um bom médico, e clamar a Ele por misericórdia e graça. Não devemos esperar por algo para levarmos conosco, como uma recomendação. O primeiro passo para a santificação, como também para a justificação, é vir a Cristo com fé. Precisamos primeiro viver e então trabalhar.

(4) Outro exemplo: se quisermos crescer em santidade e nos tornarmos mais santificados, devemos continuamente prosseguir como começamos, e estar sempre fazendo novas petições a Cristo. Ele é a Cabeça da qual todo membro deve ser suprido. (Ef. IV.16.) Viver a vida de fé diária no Filho de Deus, e estar diariamente esboçando o cumprimento de Sua graça e força prometidas, as quais Ele tem preparado para Seu povo — este é o grande segredo da santificação progressiva. Crentes que parecem estar em um estado de paralisação, estão geralmente negligenciando uma comunhão mais intima com Jesus, e, assim, entristecendo o Espírito. Aquele que orou: “Santifica-os”, na última noite antes de Sua crucificação, está infinitamente disposto a ajudar todos os que pela fé suplicam a Ele por ajuda, e têm o desejo de serem feitos mais santos.

(5) Outro exemplo: não vamos esperar muito de nossos corações aqui em baixo. Em nosso melhor, devemos encontrar em nós mesmos diariamente motivo para humilhação, e descobrir que somos devedores necessitados de misericórdia e graça a cada hora. Quanto mais luz tenhamos, mais devemos ver nossa própria imperfeição. Pecadores éramos quando começamos, pecadores devemos encontrar em nós mesmos enquanto prosseguimos; renovados, perdoados, justificados — ainda assim pecadores até o final. Nossa absoluta perfeição ainda está por vir, e a expectativa disto é uma razão pela qual devemos ansiar pelo céu.

(6) Finalmente, nunca nos envergonhemos de esforçar-nos por mais santificação, e contender por um alto padrão de santidade. Enquanto uns estão satisfeitos com um nível miseravelmente baixo de resultados, outros não se envergonham de viver sem santidade alguma — contentes com um mero ciclo de freqüentar igrejas e capelas, sem nunca firmar-se, como um cavalo num moinho — Permaneçamos firmes nos velhos caminhos, seguindo um elevado nível de santidade para nós mesmos, e recomendando-o corajosamente a outros. Esta é a única maneira de ser realmente feliz.

Sintamo-nos convencidos, não importando o que outros possam dizer, que santidade é felicidade, e que o homem que atravessa a vida mais confortavelmente é o homem santificado. Não há dúvida de que existem verdadeiro Cristãos que por motivos de saúde, provações familiares, ou outras causas secretas, desfrutam de pouca noção de conforto, e vão pranteando todos os seus dias no caminho para o céu. Mas estes são casos excepcionais. Em regra geral, ao longo da vida, será constatada a verdade de que “as pessoas santificadas são as mais felizes da terra.” Elas tem um conforto sólido, o qual o mundo não pode dar nem tirar. “Os caminhos da sabedoria são caminhos de delícias.” — “Grande paz têm aqueles que amam Tua lei.” — Isto foi dito por Alguém que não pode mentir. “Meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.” — Mas também está escrito: “Não há paz para os ímpios.” (Prov. III.17; Sal. CXIX.165; Mat. XI.30; Isa. XLVIII.22)

P. S. O tema da santificação é de uma importância tão profunda, e os erros cometidos sobre ele são tantos e tão grandes, que não me desculpo por recomendar vigorosamente “Owen sobre o Espírito Santo” a todos que queiram estudar mais detalhadamente a doutrina inteira da santificação. Um simples ensaio como este não pode abarcá-lo completamente. Estou perfeitamente consciente que os escritos de Owen não estão na moda nos dias atuais, e que muitos pensam ser apropriado negligenciá-lo e desdenhá-lo como um Puritano! No entanto, o grande clérigo que nos tempos da República foi Deão da Igreja Cristã, Oxford, não merece ser tratado deste jeito. Ele tinha mais ensinamento e profundo conhecimento da Escritura em seu dedo mindinho do que muitos que o depreciam possuem em todo o seu corpo. Eu afirmo indubitavelmente que o homem que deseja estudar teologia experimental não encontrará livros iguais aqueles de Owen e alguns de seus contemporâneos, pelo completo, Bíblico, e exaustivo tratamento dos temas que eles abordam.

1 No original (inglês), os capítulos são citados pelo autor na forma de algarismos romanos e aqui serão mantidos como tais. As passagens citadas, na ordem em que aparecem no texto, são: Hebreus 12.14; Efésios 4.16; Provérbios 3.17; Salmo 119.165; Mateus 11.30; Isaías 48.22 [N. do T.].

Tradução: Nelson Ávila (aluno da Escola Charles Spurgeon) .

Este texto foi publicado com a autorização de Len Hardison, Diretor de Desenvolvimento do Third Millennium Ministries. Agradecemos a forma carinhosa com que acolheu nossa petição. Deus abençoe este ministério!

publicado originalmente com o título “Justification and Santification — How do they Differ?”, na RPM Magazine, no site da Third Millennium Ministries:

http://old.thirdmill.org/magazine/current.asp/category/current/site/iiim