Entrevista com o Teólogo Franklin Ferreira

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Entrevista com o Teólogo Franklin Ferreira

Por Notícias

Importante, consistente e… brasileira

A Revista Cristianismo Hoje entrevista Franklin Ferreira co-autor de:

“Teologia Sistemática – Uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual”.

O sonho de uma teologia brasileira não morreu. Ao contrário, está mais vivo que nunca. E mesmo que Franklin Ferreira e Alan Myatt não julguem alcançá-lo, nem ao menos desejá-lo, a sua dogmática certamente fará espocar sinais de júbilo verde-e-amarelo.

Olhado detidamente, o livro se mostra mais do que uma pesquisa teológica de volume respeitável e desafiador. A rigor, é uma investigação complexa do pensamento teológico de todas as épocas do cristianismo. Mas o público perceberá que, diferentemente de outros títulos disponíveis, cada tema teve a adição de estudos e abordagens que o relacionam a outras análises, dando-lhe maior interação com outros ambientes e ampliando as possibilidades de observação.

No país, a teologia sistemática se resume, normalmente, à tradução de obras estrangeiras e manuais de apoio a seminaristas, enquanto Franklin e Alan propõem uma leitura da teologia e filosofia, a ser decodificada por intérpretes imersos na realidade cultural brasileira e que não estão dispostos a abdicar de sua cosmologia.

Teologia sistemática pode representar uma esquina na pesquisa apologética e, talvez, na academia como um todo, pois tem o mérito de, até agora, ser a melhor dogmática feita no Brasil e para brasileiros. Destaque também para o idioma no qual Teologia sistemática foi escrito – o português.

Nesta edição, CRISTIANISMO HOJE traz uma entrevista, concedida por um dos autores, para que o público possa acompanhar mais de perto o seu pensamento. Descortine então o escritor brasileiro Franklin Ferreira.

CH: Como foi a experiência de escrever uma obra de fôlego como uma teologia sistemática?

FF:Difícil resumir em poucas palavras um trabalho de quase dez anos. Originalmente, essa obra começou como uma apostila, preparada pelo Alan, para uso dos seus alunos de teologia sistemática, no Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil, no Rio de Janeiro, e foi usada de 1996 a 1999.

Após esse período, a apostila foi revisada e expandida por mim, quando assumi a disciplina, durante um período em que Alan esteve nos Estados Unidos. Depois, continuamos a fazer revisões, cada um contribuindo com matérias relevantes nos vários tópicos. O Alan assumiu a responsabilidade pelas seções relacionadas com as seitas e religiões, as exposições bíblicas do Antigo Testamento e do Novo Testamento e a parte apologética. Eu assumi as seções histórica, sistemática e pastoral. A obra toda não é apenas a união de dois trabalhos independentes, mas uma colaboração total.

Em todo esse período, tanto eu como o Alan estivemos envolvidos com aulas, pregação, pastoreio, outras pesquisas, problemas de saúde, etc.

CH: Que destaques no conteúdo, formato e abordagens você mesmo faria para especificar essa obra, escrita originalmente no Brasil, diante de outras obras já existentes?

FF:Cada capítulo – sem contar os dois primeiros, que servem como introdução e seguem a divisão clássica dos temas das principais teologias sistemáticas – é dividido em cinco partes: após levantar as perguntas importantes feitas no Brasil, ligadas a cada tema teológico, como revelação, Deus, Cristo, salvação, ressurreição, igreja, reino, tem-se: 1) uma investigação sobre as respostas dadas a essas perguntas em outros tempos e lugares, com atenção especial sobre como as seitas, pensadores e documentos cristãos responderam a esses questionamentos; 2) um estudo exegético sobre as principais passagens bíblicas relacionadas ao tema; 3) um resumo sistemático do ensino bíblico; 4) uma defesa apologética do resumo bíblico frente a outros ensinos e 5) uma aplicação pastoral e devocional do ensino bíblico sistematizado.

No conteúdo, essa teologia sistemática é de corte evangélico, reformada e batista. Dependemos bastante dos escritos dos Pais da Igreja, dos reformadores, dos puritanos, de Jonathan Edwards e de Abraham Kuyper. Também se evidencia nosso constante diálogo com as confissões de fé clássicas. E, no que se refere à abordagem, essa obra é marcada por uma forte interação com o ambiente multicultural brasileiro, especialmente com as principais expressões religiosas presentes em nossa cultura.

CH: Como você avalia a relevância de Teologia Sistemática num contexto pluriconfessional?

Em nossa opinião, a Igreja brasileira, por uma série de razões vive uma época marcada por extremo anticonfessionalismo. Aliás, em alguns círculos – notadamente nos seminários – ser confessional se tornou motivo de piada e desprezo. Em parte, essa aversão à confessionalidade tem a ver com a rejeição de qualquer autoridade e com o isolamento histórico – e o resultado disso é a simples repetição de velhas heresias teológicas. Por exemplo, muito do liberalismo teológico presente nos seminários teológicos brasileiros lembra os postulados da heresia gnóstica, presente na Igreja antiga. Em outras palavras, a rejeição da confessionalidade acaba por levar a igreja a caminhar para trás! Por isso, não raro, a rejeição da confessionalidade caminha com a rejeição da própria teologia sistemática. Não é necessário gastar muito tempo para se perceber que a rejeição da teologia sistemática é uma tolice e parte, muitas vezes, da nítida má vontade em tornar claro o que se crê – logo e é, na verdade, uma capitulação ao subjetivismo e ao irracionalismo. A rejeição de formulações sistemáticas geralmente surge em setores que estão rompendo com a fé cristã tradicional. Vendo por outro ângulo, se valorizarmos a confessionalidade e apreciarmos o necessário diálogo com outras tradições cristãs, a teologia sistemática será vital. Será essa disciplina que irá nortear o debate, tornando-o claro, honesto e frutífero, ajudando, por exemplo, batistas, episcopais, luteranos, metodistas, pentecostais e presbiterianos a entenderem o que é central em suas tradições, para, a partir desse núcleo, travar debates proveitosos e construir agendas conjuntas para ações missionárias, éticas, políticas ou educacionais. Além disso, a compreensão da importância dessa disciplina remete-nos ao fato de que é nossa compreensão das doutrinas cristãs que irá nortear nosso culto, oração, pregação, aconselhamento, ensino, missões, etc. Por isso, Dietrich Bonhoeffer, pregando em 1933, afirmou que a Igreja só permanece igreja se é confessional. No fim, a teologia sistemática permanece, ainda hoje, como “a rainha das disciplinas teológicas”, justamente por seu caráter norteador da prática cristã.