Declínio Religioso após a Reforma

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Declínio Religioso após a Reforma

Por Robert Hastings Nichols

A história do protestantismo alemão durante os anos que se seguiram à reforma é desalentadora. A grande onda de reavivamento religioso, que a obra de Lutero tinha provocado, logo arrefeceu. Teve início uma triste era de disputas teológicas inúteis. Mesmo antes da paz de Augsburg (1555), os luteranos disputavam entre si a respeito de questões de doutrina. Além disso havia entre os luteranos e os teólogos reformados discussões doutrinárias que alargavam cada vez mais a brecha entre esses dois grupos do protestantismo.

Um dos resultados dessas disputas foi a elaboração, pelos luteranos, em 1577, de um longo credo chamado de Fórmula da Concórdia. Julgava-se que essa fosse a expressão final do credo luterano, que definia toda a questão como deveria permanecer. Ela condenava o Calvinismo, especialmente a doutrina da predestinação, perpetuando assim a separação dos grupos luterano e reformado.Todavia, definiu-se, afinal, sobre todos os assuntos discutidos entre os luteranos, conseguindo boa medida de harmonia entre eles mesmos. A Fórmula da Concórdia, veio a ser considerada por eles mesmos, uma expressão completa da verdade cristã, um credo tão perfeito que não podia ser melhorado. Foi essa a razão porque os ministros luteranos dedicaram suas vidas à exposição e defesa desse credo, em vez de procurarem fortalecer a vida espiritual do povo, induzindo-o ao serviço cristão. Eles estavam mais interessados na defesa da ortodoxia da doutrina luterana do que nos resultados da verdade cristã na vida dos crentes.

Essa foi a razão do declínio religioso do luteranismo alemão ao fim do século 16 e 17. O êxito da contra-reforma nos distritos luteranos foi devido, principalmente, a essa condição. O enfraquecimento religioso e as contínuas disputas teológicas entre luteranos e calvinistas explicam o papel obscuro do Protestantismo alemão nos primeiros anos da guerra dos 30 anos. A guerra não trouxe qualquer benefício; pelo contrário, produziu grave prejuízo espiritual, como resultado da ruína e do barbarismo que provocara.

É assim que encontramos a vida religiosa do protestantismo alemão depois de 1648: Terrivelmente enfraquecida. A situação era a mesma, tanto entre luteranos como entre reformados. O ministério era pobre quanto à religião pessoal. A ortodoxia era considerada a característica mais importante de um ministro. Não se pensava que fosse necessária uma profunda experiência cristã que produzisse cristãos zelosos, consagrados. A pregação consistia, naturalmente, em grande parte de discussões teológicas; e pouca ênfase era dada à necessidade de se viver um cristianismo vitalizado, rico de experiências e de frutos. As igrejas eram frias, cheias de formalidades e inativas. Não havia idéia de missões cristãs, e, em sua pátria, o protestantismo estava longe de ser uma força agressiva e entusiástica, como veio a ser depois.

A reação PIETISTA:

Nessa época, quando era tão necessária uma nova vida, ela apareceu com vigor e grande poder no movimento conhecido pelo nome de Pietismo. Seu primeiro líder foi: Filipe Jacó Spener. Ainda jovem ele viu os problemas religiosos de seu país; daí o motivo da atitude que tomou, a fim de remediar a situação.

Como pastor em Frankfurt (1666-1686), Spener muito se esforçou para que seu povo alcançasse um cristianismo ardente, sincero e purificasse a sua vida em todos os aspectos. Ele pregava sermões de caráter prático, fervoroso e simples, evitando àquele estilo rígido de oratória tão em moda na época. Insistia na verdade da regeneração, àquela mudança produzida no coração do homem de fé, pelo Espírito Santo; insistia no fato, de que, ser nascido de Deus, e levar uma vida de santidade e serviço, era infinitamente mais importante do que ter pontos de vista ortodoxos quanto à doutrina. Embora seja difícil de acreditar, essa idéia, era nova e muito estranha. Spener reavivou a doutrina básica da reforma, o sacerdócio universal dos crentes, e provou que um dos sentidos práticos dessa doutrina era que os leigos deviam participar dos serviços religiosos, ensinando e ajudando uns aos outros. Realizava reuniões em sua própria casa para estudo devocional da Bíblia, orações e instrução mútua, nas quais os leigos tomavam parte ativa. Realizava grande serviço pastoral e dispensava atenção especial à educação religiosa das crianças. O fato de que tanto o seu ensino como seus métodos serem novos para a vida da igreja do seu tempo, é a melhor indicação de como era séria a situação eclesiástica então existente.

O ministério de Spener teve como resultado um autêntico reavivamento em muitas pessoas de Frankfurt. Foi assim que teve início o movimento Pietista, como foi depois chamado, isto é, o reavivamento da piedade do cristianismo real, dinâmico, em contraste com a mera ortodoxia quanto à doutrina. Esse movimento cresceu depois, principalmente por causa do livro de Spener, Pia Desideria (Desejos Piedosos), no qual apontava os males e as condições espirituais difíceis do seu tempo e indicava como solução os ensinos e os métodos que usava. O movimento cresceu com muita rapidez e tomou o caráter de um forte e grande despertamento espiritual. Encontrou severa oposição dos teólogos ortodoxos (A Faculdade Teológica de Wittenberg atacou Spener, atribuindo-lhe 264 erros teológicos) e dos que se opunham aos estritos ensinos morais dos pietistas. Mas tudo isso foi em vão. Por volta dos meados do século, começando em 1685, o Pietismo tornou-se a influência dominante no Protestantismo alemão, revigorando-o espiritualmente, enchendo de nova vida a religião cristã. Esse movimento foi, realmente, uma continuação do reavivamento religioso que resultou da Reforma. Oculto por muitos anos, aparentemente apagado, surgia agora com novo poder revificador.

Como todos os reavivamentos genuínos, o Pietismo inspirou os crentes à realização de obras cristãs. Nesse aspecto do grande movimento, entramos em contato com o seu segundo grande líder, Augusto Frank, pastor e professor da Universidade de Halle desde 1694. Essa cidade e sua universidade tornaram-se o centro do movimento pietista. Foram fundadas ali grandes instituições para as crianças desamparadas; ali estava também a sede oficial da Missão Danish-Halle.

O Pietismo tem a honra de ter produzido a obra das primeiras missões estrangeiras protestantes. O rei da Dinamarca, desejando ministrar ensino cristão ao povo dos seus domínios no Sul da Índia, conseguiu vários missionários dentre os pietistas alemães. Os primeiros foram para Tanquebar em 1705. Durante esse século, 60 missionários, entre os quais estava o nobre Benjamim Schvartz, foram enviados àquela missão pelas escolas pietistas de Halle.

Além do que alcançou na vida religiosa da Alemanha, o Pietismo inspirou, em outras terras, forte impulso de poder espiritual, o que produziu grandes resultados. A irmandade da Morávia foi, em parte, um resultado desse movimento. Por intermédio dos irmãos moravianos, o espírito do pietismo tocou John Wesley e o tornou um dos líderes mais poderosos que a igreja cristã já possuiu. Por influência de um ministro pietista alemão de Raritan, New Jersey, Gilbert Tenent recebeu um reavivamento pessoal e, pleno desse espírito, a sua pregação tornou-se uma das causas do Grande Reavivamento na América do Norte.

(Extraído do Livro “História da Igreja Cristã” – Editora Cultura Cristã).