Aprendendo com a tradição cristã: uma direção para a Igreja

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Aprendendo com a tradição cristã: uma direção para a Igreja

Por FRANKLIN FERREIRA

Vivemos numa época chamada por muitos de pós-moderna, caracterizada por forte desconfiança na razão, por muitas e novas “verdades”,pelo individualismo e consumismo. Há uma semelhança muito grande, entre o nosso tempo e a época em que o Cristianismo surgiu. Temos visto, atualmente, o ressurgimento de uma cultura pagã, muito parecida à cultura do tempo de Jesus e dos apóstolos.

A Igreja Cristã hoje é ignorada pelo mundo, tendo que lutar por sua sobrevivência ao lado de muitos outros movimentos religiosos. Estas mudanças, que estão ocorrendo no mundo, têm tido poderosa influência sobre nossa doutrina, nossa pregação e nossa forma de ser igreja.

Se desejamos ser uma igreja fiel à tradição cristã, precisamos redescobrir as doutrinas centrais da fé cristã. Precisamos retornar às doutrinas bíblicas, buscando saber o que é vital para nossa salvação e também em que podemos ter opiniões diferentes. Então, a partir deste ponto, devemos pregar e ensinar doutrinariamente, enfatizando a centralidade das Escrituras, a doutrina da Trindade (que nos ensina que o único Deus revela-se como Pai, Filho e Espírito Santo), o ofício e a obra de Cristo (verdadeiro Deus, verdadeiro homem), o pecado, a expiação, a regeneração, a fé e o arrependimento, a justificação, a santificação como obra do Espírito, o julgamento, o céu e o inferno, e, em tudo isto, denunciando o Cristianismo hipócrita e nominal. Tragicamente, temos sido afastados “da simplicidade e da pureza que há em Cristo Jesus” I Coríntios 11.4.

Agora, uma palavra especial aqueles que têm servido à Igreja na pregação e no ensino. Não basta apenas uma recuperação teológica. Precisamos recuperar uma pregação bíblica e doutrinária. Precisamos de pregadores expositivos, que busquem pregar toda a Palavra de Deus, e saibam que só o Espírito Santo, ligado à Palavra, pode salvar pecadores.

No tempo da Reforma, a promoção da pregação expositiva era um claro ataque aos métodos de ensino católicos. Estes usavam a dramatização, que era chamada de “dramatização dos mistérios”, onde atores profissionais eram pagos para, junto ao altar, representar diante do povo, por eles considerados inculto e incapaz, as verdades das Escrituras – que muitas vezes eram romanceadas! Mas, segundo uma antiga confissão de fé, “a pregação da Palavra de Deus é a Palavra de Deus”.

Então, por causa de seu alto conceito das Escrituras, por entender que a exposição da Palavra é o meio de salvação, e que o homem, por ter a imagem de Deus é um ser com capacidades racionais, nossos antecessores rejeitaram estes acréscimos. O único “sacramento” que eles aceitaram foi a pregação da Palavra. Precisamos voltar a ensinar toda a Palavra, não apenas os nossos textos preferidos, ou que aqueles os quais a congregação gosta mais de ouvir, mas toda a Palavra de Deus! Quando o fiel ensino e a pregação da Palavra são negligenciados, sempre surgirão superstições e crendices dentro da própria Igreja Evangélica.

Precisamos redescobrir uma nova forma de ser Igreja. O Novo Testamento oferece limites para sermos igreja, mas dentro destes limites, há muita liberdade para adaptações às mudanças que aparecem em diferentes lugares e épocas. Partindo deste ponto, precisamos reafirmar, de forma criativa, a vida em comunidade. Para isto, devem ser encorajados meios para incluir os vários dons espirituais dos cristãos no ministério de nossas igrejas, lembrando que cada crente é importante e tem um ministério necessário no Corpo de Cristo.

Ao mesmo tempo, todos os membros deveriam estar conscientes de suas responsabilidades de mútua submissão e auto-doação na igreja em que participam. A Igreja, enquanto estabelecida por verdades bíblicas, existe para nutrir relações de cuidado entre seus membros. Para imitar a Igreja do Novo Testamento, a igreja local tem que cultivar amizades profundas. Cultos nos lares, núcleos de estudos bíblicos, retiros e outras formas de comunhão contribuem para reunir em amor o povo de Deus, exaltando a alegria e o amor da Trindade, e antecipando a comunhão abençoada do céu.

O preço do discipulado e da disciplina precisam ser novamente enfatizados na igreja, pois o que tem prevalecido em nosso meio é conhecido como “graça barata”. Não podemos nos deixar de espantar com o ataque de Dietrich Bonhoeffer contra a “graça barata” (termo que ele mesmo cunhou): “Graça barata significa a graça vendida no mercado como quinquilharia ordinária. Graça barata não é o tipo de perdão que nos liberta dos laços do pecado.

Graça barata é a graça que concedemos a nós mesmos. Graça barata é a pregação do perdão sem a exigência do arrependimento, batismo sem disciplina na igreja, comunhão sem confissão, absolvição sem confissão pessoal. Graça barata é a graça sem discipulado, graça sem a cruz, graça sem Jesus Cristo vivo e encarnado”.

Precisamos também recuperar o rico conceito bíblico de sacerdócio de todos os crentes. Segundo Martinho Lutero, todo cristão é sacerdote de alguém, e somos todos sacerdotes uns dos outros. Este sacerdócio deriva diretamente de Cristo, pois “somos sacerdotes como Ele é sacerdote”. É uma responsabilidade tanto quanto um privilégio: “O fato de que somos todos sacerdotes significa que cada um de nós, cristãos, pode ir perante Deus e interceder pelo outro. Se eu notar que você não tem fé ou tem uma fé fraca, posso pedir a Deus que lhe dê uma fé sólida”.

Não podemos ser cristãos sozinhos, por que precisamos da “comunhão dos santos”: uma comunidade de intercessores, um sacerdócio de amigos que se ajudam, uma família em que as cargas são compartilhadas e suportadas mutuamente. Nem todos podem ser pastores, mestres ou conselheiros. Há um só “estado” (todos os cristãos são sacerdotes), mas uma variedade de funções (cada cristão tem um chamado específico da parte de Deus, para glorificá-lo no mundo). Em todas estas coisas, somos ensinados que Deus, em Cristo, por meio do Espírito, nos chama como indivíduos para vivermos em comunidade. Não existe uma fé solitária segundo o Novo Testamento!

Concluindo: num tempo de mudanças tão profundas e complicadas, temos diante de nós uma grande tarefa – a de, na dependência do Espírito, orar, pregar e ensinar, de tal forma que a Igreja de Cristo chegue à maturidade! Um antigo documento da Igreja expôs toda nossa responsabilidade e toda a nossa esperança na tarefa de proclamarmos com força renovada a fé evangélica: “Todo-poderoso e eterno Deus, que pelo Espírito Santo preside no concílio dos apóstolos, livra-nos do erro, da ignorância, do orgulho e do preconceito; e confiados em tua misericórdia, te imploramos: dirige, santifica e governa sobre nosso trabalho, pelo grande poder do Espírito Santo, a fim de que o confortante evangelho de Cristo seja verdadeiramente pregado, verdadeiramente recebido e verdadeiramente seguido em todos os lugares, para a derrota do reino do pecado de Satanás e da morte; até que ao fim todas as tuas ovelhas dispersas, juntadas no teu aprisco, tornem-se participantes da vida eterna; pelos méritos e morte de Jesus Cristo, nosso Salvador. Amém. Amém”.(com autorização do autor).